Um breve desabafo sobre livros

Ontem, enquanto tentava dormir me lembrei do meu terceiro dia de treinamento na livraria. Mais precisamente de uma venda.

Um grupo, um pai e suas três filhas adentraram na loja, eu que estava livre fui ajuda-los. Eles subiram até a sessão infantil e sentiram-se em casa. Pegavam livros, sentavam na mesinha, lia um pouquinho, pedia a opinião entre si e do pai. Era uma cena muito bonita de se ver, já que o grupo era bem novo, as garotas tinham mais ou menos 11, 8 e 5 anos. Eu estava um pouco tímida ainda, medindo cada palavra e passo para não errar nada, então eu acabei ficando um pouco de lado, olhando e ajudando quando pediam.

Quando por fim terminaram e foram pagar, o pai perguntou para mim: “Eu não podia ganhar um desconto?”. Travei. Eu não sabia o que fazer, minha chefe estava por perto, mas ocupada. Ela nunca me disse se eu podia dar algum desconto para clientes que não fossem professores e eu estava tímida demais para perguntar. Acabei por responder tímida: “Desculpe, mas eu não posso”.

Ele reclamou um pouco mais, mas acabou aceitando. Quando ia devolver seu cartão, lhe disse:

“Eu realmente sinto muito por não poder te dar o desconto. Eu leio muito e sei o quanto pesa no bolso manter esse habito. Mas te digo, você está fazendo um bem danado a suas filhas.”

No momento, eu não tinha ideia do que tinha dado em mim para dizer tais palavras, mas eu não estava triste por ter dito. O homem deu de ombros, como se não se importasse e foi embora. Eu continuei ali, apoiada no balcão, pensando nos livros. Eu via todas aquelas pessoas comprando livros e mais livros durante o dia e sentia inveja, afinal, eu nunca comprei muito. Mas não era só inveja que eu sentia, era revolta.

Os livros são armas, eles nos ensina a pensar e desenvolver nossas próprias opiniões. Desde que aprendemos a ler por prazer nos transformamos em críticos, em pessoas capazes de pensar por conta própria. Talvez aquele pai não ligue, talvez ele siga a lei do dinheiro. Mas talvez, quando eles chegassem em casa e as meninas admirassem os novos livros, folheando, pondo eles nas estantes, ele sorria e perceba que sim, valia a pena pagar uma pequena fortuna por livros. Ele entende que é caro e que é injusto ser assim, mas sabe que é a melhor coisa para as filhas dele. Ele está fazendo sua parte para formar três grandes mulheres.

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